- Gerenciamento do stress e do medo ao seu favor –
por: Rui Marra
1. Por que existe uma reação diferente dos passageiros ao mesmo evento estressante - o vôo. Que fatores determinam essas reações?
Após experimentar voar duplo com mais de 16.000 pessoas e ensinar a mais de 700 alunos a alçarem vôo por conta própria, fiquei extremamente curioso sobre quais fatores ajudavam e outros tantos que bloqueavam ou dificultavam o aproveitamento do vôo, seja como aluno ou passageiro. Realizando uma pesquisa individual com aqueles que apresentavam medos extremos ou facilidades acima da média comecei a relacionar essas reações com a infância.
Coincidentemente aqueles que apresentavam medos extremos haviam tido algum tipo de trauma ou violência doméstica em graus diferentes, desde psíquica até corporal criando dentro deles um gatilho emocional onde, segundo o Dr.DAVID Servan-Schreiber, Doutor em ciências Neurocognitivas pela Universidade de Carnegie Mellon, o cérebro emocional é bem mais que um vestígio encoberto de um passado, ele é senhor de nosso corpo e paixões, é a fonte de nossa identidade e dos valores que dão senso à vida.
2. O caso do passageiro inglês.
Prestes a decolar com um piloto de asa delta John começou a entrar em pânico e a chorar. Tinha aproximadamente uns 30 anos e de longe percebi que era uma reação exagerada e antiga para uma situação presente. Eram sinais claros de ativação do cérebro emocional sinalizando algo muito grave.
O piloto chamou-me e, conhecedor do trabalho de gerenciamento de medo que realizo, pediu para que eu conversasse com ele. Pelo choro incessante parecia mais uma criança que tinha apanhado muito e daí comecei delicadamente a perguntar sobre sua infância até que falou que sua mãe lhe batia muito e violentamente. Ou seja, seu cérebro emocional lhe estava sinalizando que se não corresse direito com o piloto ou se fizesse algo errado iria apanhar.
Juntamente com esse estimulo antigo é acionada a fisiologia do estresse aonde o gatilho emocional irá disparar o hipotálamo (glândula no cérebro) e enviar através dos nervos da coluna para as glândulas adrenais ativando-as para secretar um dos hormônios do estresse - a adrenalina, que então mobiliza os músculos para lutar ou fugir (reação de Neanderthal) ou, alternadamente, o hipotálamo ativa a pituitária para secretar o hormônio ACTH (hormônio adrenal cortico trópico) que por sua vez estimula o córtex ou a camada externa das glândulas adrenais para secretar outro hormônio do stress, o cortisol, que então ativa o corpo.
Na Universidade de Yale, o laboratório de Patrícia Goldman-Rakic já sugeriu que o cérebro emocional é capaz de tirar o cérebro racional do ar e de repente, reflexos e respostas instintivas assumem o “comando”. Essas respostas mais rápidas estão mais perto da nossa herança genética. A evolução deu-lhes prioridades em emergências. É como se elas fossem melhores do que a reflexão abstrata para nos guiar quando nossa sobrevivência está em jogo segundo experiência da Dra. Goldman, ou seja, teria que guiar John para a racionalidade , interrompendo o ciclo fisiológico do stress e torná-lo um aliado para a decolagem segura de John.
Dentro do esporte de aventura é importante a percepção do fornecedor (operador) com relação ao estado emocional do “aventureiro” para que seja desenvolvido uma sinergia e um trabalho de equipe proporcionando assim maior segurança e aproveitamento do cliente durante a atividade realizada, seja um vôo, rafting, mergulho, escalada e etc.
Diante destes cenários, procurei entender essa fisiologia do estresse e medo pois queria ter mais informações para poder aprimorar inclusive a nossa escola de vôo levando em consideração até a infância de nossos alunos.
Existe uma frase do Dalai Lama que expressa a filosofia da SUPERFLY:
“Um dos segredos da felicidade é ser feliz com a felicidade dos outros!!!”
 Bons vôos – Rui Marra.
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